Metamorfose
Troféu pós iluminista. Materialização de nosso progresso. Prova de nossa evolução. Assim eu via, e assim todos vêem, esse monstrengo dotado de chaminés, fumaça e mazelas.
O pano preto soltou as amarras de minha cabeça, caiu dos meu olhos, quando me perdi em um mundo diferente. Um mundo sem as fantasias. Não o meu, nem o seu. Mas era Mundo, o verdadeiro, real. Só há João, só há Maria. Sonhos decepados, sem dignidade. Vida. Ainda assim dotados de alegria.
João acorda cedo, muito antes de nós. Pega dois ou três ônibus. Leva consigo a marmita fria. Vai para a linha de produção. Age da mesma forma das maquinas que dali saem. Parece um simples animal. Constrói a destruição de seu mundo. Constrói o nosso.
Ainda assim chega feliz em casa. O salário não alimenta Maria. Nem os filhos. Imagine comprar celular? Videogame? DVD? Produtos produzidos por ele, para nós, nosso egoísmo. Mesmo assim transborda felicidade em seu ninho. Sábios são eles? Não querem o que não tem? Não desejam o que não podem? Contentam-se com pouco, como os antagônicos orientais.
Revelador foi o dia que atravessei aquele portal. Subi as escadarias. E lá de cima pude ver a fumaça. A poluição do ar e das mentes, nossas mentes. Revelador foi o dia que me perdi, de dentro de todo meu conforto, para encontrar, sem querer, a verdade.
***Beck-Lonesome Tears***